Brasileiros vão para o Vale do Silício para driblar a crise e empreender

Depois de vender o site de compras coletivas Peixe Urbano, em 2014, o empresário Julio Vasconcellos chegou a uma encruzilhada. Queria empreender novamente, mas o cenário no Brasil, com crise econômica e política, não era favorável. Resolveu passar uma temporada no Vale do Silício, onde havia vivido dos 17 aos 29 anos e chegado a trabalhar no Facebook. Ao retornar, encontrou um ambiente bem diferente do que vivera antes, e ainda mais aquecido. Foi o suficiente para que , no ano seguinte, ele criasse sua nova empresa, a Prefer.

A Prefer é um aplicativo de recomendação de serviços profissionais, como advogados, estilistas e corretores de imóveis. Atualmente, o site não gera receita, mas a intenção é cobrar uma assinatura em troca de serviços premium, na linha do que faz a rede social LinkedIn. Hoje, a startup é uma das 32 empresas de tecnologia fundadas por brasileiros na região de São Francisco. O dado faz parte de levantamento exclusivo da Bay Brazil, associação que reúne 9 mil pessoas e ajuda a realizar pontes de negócios entre Brasil e EUA. Dentre as empresas, pelo menos dez já geram receita e apresentam lucros.

No total, diz o estudo, elas faturam juntas US$ 100 milhões por ano, mesmo com poucos funcionários. A maioria – 19 startups, incluindo a Prefer – tem menos de dez colaboradores. Sete tem até 50, uma tem entre 50 e 100 e só cinco empresas tem mais de 100 empregados.

Capital. Um dos principais motivos para se estar no Vale do Silício é o acesso a capital. Foi o que permitiu que Vasconcellos conseguisse atrair investidores de renome para a primeira rodada da Prefer, liderada pela Benchmark Capital – um dos primeiros investidores do Uber. Não foi só: David Karp, do Tumblr, e os brasileiros Mike Krieger, do Instagram, e Hugo Barra, hoje no Facebook, também apostaram na Prefer. Porém, não adianta estar nos EUA sem ter bons contatos. “Se não tem rede, o empreendedor está em desvantagem”, diz Vasconcellos. Para estreitar seus laços com o Vale, ele fez um MBA na Universidade de Stanford, instituição considerada vital para que a região emergisse como polo de tecnologia.

É uma estratégia comum entre os brasileiros. “Hoje, dos 400 alunos que cursam negócios em Stanford, há sempre 10 ou 12 brasileiros em cada turma”, diz Stephen Ciesinski, professor da universidade. Para o acadêmico, o Vale é uma região amigável para estrangeiros, mas “só quando o empreendedor está comprometido”.

Ponte aérea. Se Vasconcellos voltou ao Vale, há quem prefira viver na ponte aérea. É o caso de Marco DeMello, presidente executivo da startup de segurança PSafe. Hoje, ele passa três semanas por mês na filial da empresa em São Francisco, e uma no Rio de Janeiro, onde fica a sede da startup. Assim como o fundador da Prefer, DeMello também já trabalhou nos EUA: foi executivo de segurança da Microsoft e chegou a trabalhar ao lado de Bill Gates em alguns projetos, antes de deixar a empresa, em 2006.

Cinco anos depois, criou a PSafe, que hoje detém 30% do mercado brasileiro de antivírus para o sistema operacional Android. Em 2016, investiu US$ 20 milhões para entrar no mercado americano, incluindo a abertura do escritório em São Francisco, onde hoje trabalham 15 funcionários. “O foco no crescimento no mercado americano exige isso”, diz DeMello. A estratégia começa a dar frutos: “De um total de 20 de milhões de usuários, hoje temos três milhões nos EUA.”

Experientes. Aos 48 anos, DeMello está na faixa etária mais comum entre os empreendedores brasileiros. De acordo com o levantamento da Bay Brazil, 36,1% tem entre 40 e 49 anos. Entretanto, o dado mais surpreendente do estudo está no gênero: 25% dos empreendedores são mulheres. É uma média superior à americana: segundo dados do Crunchbase, as mulheres fundaram 17% das startups no ano passado e receberam 9% dos investimentos nos EUA.

Uma das brasileiras na região é a advogada Camille Levi, cofundadora da Imperio Tech. Em 2012, ela foi para a Califórnia fazer um mestrado em Stanford. Antes disso, já havia requerido uma patente de um cabide inteligente, o FlexHanger. Após o fim do curso, transformou o produto na base de um sistema que registra informações para lojas, como os horários de mais vendas ou nos quais os produtos são mais manuseados.

“O varejo físico está estagnado há anos”, diz Camille, que planeja oferecer a solução – o cabide e o software que o acompanha – para varejistas, cobrando uma taxa fixa pelo uso dos produtos. “Quero levar as possibilidades do online para a loja física.” A empresa ainda está em seus primeiros passos e busca investidores para financiar seu projeto piloto. Estar no Vale do Silício, diz Camille, já permitiu que ela fizesse contatos na China, onde espera atrair capital e também clientes.

O progresso de Camille, Vasconcellos e DeMello ilustra o potencial do que os brasileiros podem realizar no Vale do Silício. “O Brasil chegou atrasado na festa”, diz Ciesinski, de Standford, lembrando que muitos europeus e asiáticos já estão presentes no Vale e ajudaram a fundar empresas bilionárias – a Índia, por exemplo, tem 14 fundadores de empresas nesse patamar, segundo dados da National Foundation for American Policy. “Mas, mesmo com atraso, as coisas estão começando a acontecer para os brasileiros.”

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