Como criar cidades melhores, segundo este professor de Harvard

Se você quer uma cidade melhor, envolva-se. Cobre boas políticas públicas, não só novas tecnologias. Mantenha a tradição de seu bairro viva, para evitar os malefícios da gentrificação. Use menos carro e peça por um sistema de ônibus rápido e de qualidade. Pense de forma menos egoísta. Estas são as lições de um dos grandes pensadores do urbanismo contemporâneo. Professor de Harvard e autor de O Triunfo da Cidade, Edward Glaeser é apaixonado por estudar como as metrópoles crescem, criam legados, permitem degradações ou geram inovações.

Em seu curso online CitiesX, da edX e disponível em português através da plataforma Arq.Futuro, Glaeaser mescla economia, sociologia, artes e até música para discorrer sobre o que faz uma cidade tão vívida quanto problemática. Seu intuito é ajudar as pessoas a compreenderem melhor os espaços urbanos — e, assim quem sabe, ter mais ferramentas para transformá-los. Na discussão sobre melhores cidades no futuro, Glaeaser é objetivo: de nada adianta ter novas tecnologias sem políticas públicas eficazes. “Um big data por big data não resolve nada”, disse em entrevista à Época NEGÓCIOS. Da mesma forma que de nada adianta esperar pelos santos na política para resolver o problema do trânsito das grandes cidades. A solução perpassa fundamentalmente o interesse do indivíduo. É desta pressão que novas políticas públicas poderão surgir, aproveitando todo o potencial das novas tecnologias. “A cidade é você”, diz.

Trânsito, degradação do meio ambiente e alto custo para morar em áreas melhores são algumas das aflições das cidades modernas. Como tecnologias como big data, inteligência artificial (IA) e internet das coisas (IoT) podem criar soluções para esses problemas? 
Big data por big data não vai ajudar a resolver esses problemas. As informações que a tecnologia pode proporcionar precisam ser acompanhadas por boas políticas públicas para render benefícios. Explico: big data pode ajudar você a encontrar a melhor rota para dirigir na cidade em um momento específico. Aplicativos como o Waze fazem isso. Mas, à medida que há mais pessoas dirigindo, o problema do congestionamento irá continuar existindo. Tenho quase certeza que a melhor resposta para isso é combinar pedágio urbano com um sistema de transporte público inteligente. Isso envolve usar big data e inteligência artificial. Um pedágio urbano ideal cobraria as taxas baseado em sistema de GPS e nas mudanças do congestionamento dependendo do dia, da hora e da rota. O transporte público do futuro contará, presumivelmente, com veículos autônomos e com faixas exclusivas – o que também requer utilizar big data e IA. Então, reafirmo: big data, sem uma política pública inteligente e efetiva, não resolverá nada.

Quais cidades estão usando soluções inovadoras e desenvolvendo boas políticas públicas para resolver problemas do dia a dia? 
Cingapura já está cobrando taxas diferentes para veículos se movimentarem na cidade baseando em sistema de GPS [a cidade usa câmeras, sensores nas ruas e as antenas de GPS dos carros, para prever um congestionamento minutos antes de ele ocorrer]. Por 50 anos, foi líder em utilizar tecnologia para administrar melhor a cidade – e com certeza continuará sendo no futuro.

Sou também um grande fã do sistema de ônibus de Boston que transmite todos seus dados – e permitiu o desenvolvimento de vários aplicativos que mostram às pessoas quando o ônibus chegará. Este é um caso no qual o governo não gastou um centavo – apenas disponibilizou seus dados. Também acho importante ficar de olho no Sidewalk, em Toronto [projeto desenvolvido por uma empresa da Alphabet, dona do Google, e pela Waterfront Toronto para criar espaços urbanos inovadores, digitais e focados nas pessoas]. Acho que lá teremos uma visão impressionante de um tipo de cidade do futuro. Um lugar onde vai ser possível casar tecnologia e sensibilidade às necessidades humanas.

Mais da metade da população mundial escolheu viver nas cidades e esse número deve alcançar 70% até 2050. O que vai fazer valer a pena viver nas metrópoles no futuro?
A mesma coisa que faz valer a pena hoje: proximidade com outros seres humanos. Nós somos uma espécie social. Juntos, conseguimos conquistar coisas incríveis. Sozinhos, somos criaturas insignificantes. As cidades são máquinas que nos permitem colaborar uns com os outros – e, assim, gerar conquistas grandiosas. A cidade também é uma lugar de alegria. As cidades nos permitem nos conectar uns aos outros para brincar juntos. Isso tudo continuará a fazer com que valham a pena.

Considerando suas pesquisas e previsões para o futuro. Teremos um dia uma cidade livre do trânsito?
Duvido muito. Talvez os Sidewalks de Toronto possam ser, se restringir de forma suficiente o uso de carros. Cingapura, quem sabe. Mas a política sempre acaba indo contra pedágios urbanos e as pessoas querem poder ser capazes de dirigir. Você consegue imaginar um líder que é tão corajoso a ponto de dizer para milhões de pessoas que elas só poderão dirigir se pagarem pedágios caros? Isso parece improvável para mim. Além do mais, não consigo imaginar um governo que realmente esteja disposto a gastar o suficiente para tornar o sistema público de transporte preferível ao carro. Dito isto, a situação das cidades pode ser muito melhor do que é hoje. Incline-se contra o carro. Posicione-se a favor de um transporte público mais eficiente. Curitiba fez certo ao adotar um sistema de ônibus rápido. Os ônibus – provavelmente com veículos autônomos circulando em faixas exclusivas – parecem ser a nossa melhor arma contra o trânsito no futuro.

Por falar em trânsito do futuro, o Hyperloop [sistema de transporte em cápsulas por levitação eletromagnética] aparece como grande solução. Mas há muitos críticos a esse modelo dizendo que será caro, nada prático e criará novas “megarregiões” nas cidades. Qual a sua opinião sobre esse modelo de transporte? 
Estou muito feliz que existam pessoas inteligentes no Vale do Silício e em outros lugares  interessadas nas cidades. Precisamos de inovações no transporte e estou entusiasmado com o que eles estão experimentando. Mas, na maioria dos casos, é sensato ser um pouco cauteloso antes de aceitar promessas mais ousadas.

Acredito que todo mundo queira construir uma cidade melhor para viver – mas, muitas vezes, as pessoas pensam que esta é uma responsabilidade do governo. Em que medida é também uma responsabilidade do cidadão (que deveria deixar de ser menos egoísta)? 
Eu tenho duas respostas para esta questão. Em primeiro lugar: se você quer uma cidade melhor, envolva-se. A cidade é você. Aprenda sobre as melhores políticas públicas. Engaje-se na sua vizinhança. Seja sensível, mas seja ativo. Em segundo lugar, a boa gestão pública da cidade, pressupõe ter uma boa administração pública em todos os níveis e não ficar dependendo apenas de pessoas que se comportam como santos. Nós precisamos ter um governo melhor que espera que as pessoas sejam um pouco menos egoístas e que planeje políticas de acordo com isso.

Você tem uma pesquisa profunda analisando gentrificação e como big data poderia ajudar a evitar esse processo. A gentrificação é necessariamente algo ruim para as cidades? É possível revitalizar um bairro sem gentrificá-lo?
A gentrificação tem aspectos positivos e negativos. Particularmente, há duas reclamações comuns. A primeira é que a gentrificação faz um bairro perder sua característica tradicional. Em segundo lugar, a gentrificação causaria um aumento no preço dos imóveis daquela região. Cada um desses problemas requer soluções diferentes. A melhor forma de lutar contra o aumento no preço dos imóveis é construir mais moradia. A oferta é o caminho certo para tornar cidades baratas. Além disso, construir mais em áreas ricas diminui a pressão pela gentrificação em áreas pobres. Com relação a uma comunidade perder sua essência, isso envolve necessariamente ação de seus moradores. Não necessariamente se posicionando contra novos moradores, mas celebrando e mantendo a tradição viva. Centros comunitários, grupos comunitários e trocas culturais intensas, são as ferramentas para manter uma área viva.

O seu curso sobre cidades (CitiesX) parte de um contexto econômico, mas também reflete a partir de outras disciplinas como sociologia, antropologia, arte e música. Você acredita que mudar cidades envolve conhecê-la sob vários aspectos? 
Cada disciplina traz algo que contribui com o entendimento sobre as cidades. Eu sou um economista, mas também quero entender como o Rio de Janeiro ajudou a tornar um Tom Jobim tão grande. E isso requer conhecimento sobre música. Eu quero entender como as favelas funcionam e isso requer conhecimento em sociologia. As cidades são incríveis e nós precisamos nos valer de diferentes tipos de conhecimentos para entendê-las.

No curso, você fala sobre São Paulo e Rio de Janeiro. Considerando sua perspectiva estrangeira, quais você considera os principais problemas das cidades? Temos, por outro lado, bons exemplos?
Há muito para viver nas cidades brasileiras. A beleza do Rio, a energia de São Paulo. Mas o trânsito é o principal problema, especialmente em São Paulo. Crime e violência são outros dois fatores negativos em ambas cidades. Nós já falamos que soluções para o trânsito envolvem pedágio urbano e um bom sistema de transporte de ônibus. Mas gostaria de acrescentar outro ponto necessário: melhor planejamento. Em uma cidade bem desenhada, as pessoas vivem perto de onde trabalham. Pense só em Manhattan. Uma cidade de arranha-ceús onde as pessoas podem caminhar e pegar elevadores para trabalharem. São Paulo seria uma cidade melhor se fosse mais vertical e os distritos comerciais não fossem apenas comerciais – mas misturassem espaços residenciais. A chave é eliminar as regulamentações que impedem a construção mais alta em locais onde esta é a solução mais valiosa.

Para encerrar: qual seria a sua cidade dos sonhos? 
Uma cidade onde cada criança nascida tenha uma boa chance de viver uma vida com segurança, prosperidade, alegria e cheia de significado.

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