Empreendedorismo na África: novos negócios atraem investidores e gigantes de tecnologia

O continente é um campo de testes de condições extremas – e de oportunidades – sem igual no mundo. Conheça startups que trazem inovação e desenvolvimento a vários países

Pela rodovia Mombasa, uma das principais do Leste Africano, os carros avançam devagar. O trânsito é lento o tempo todo. Perto da Land Rover blindada, transporte-padrão dos estrangeiros que vêm trabalhar no Quênia, segue um matatu, ônibus multicolorido que roda sobre velhos chassis de caminhão. A estrada corta a capital, Nairóbi. Vacas e cabras pastam no acostamento largo de terra batida e o esgoto segue a céu aberto por longos trechos. Muita gente caminha ao longo da estrada e o comércio de rua oferece quase tudo, de sofás, camas e fogões a lápides de cemitério.

Alguns comerciantes, a pé, arriscam-se pelos vãos do trânsito para incentivar a compra. Gritam em swahili (o idioma oficial do país, junto com o inglês) ou em algum dos 43 dialetos locais. Conforme o carro se aproxima de um bairro elevado no centro da cidade, a paisagem começa a mudar.

A Land Rover avança por Upper Hill, onde se vê menos gente caminhando, mais árvores e muito mais obras em andamento. A área já foi mais residencial e abrigou principalmente brancos, executivos expatriados e diplomatas. Agora, o bairro se transforma. Operários e máquinas de construtoras chinesas duplicam vias e levantam novos edifícios comerciais. A demanda por espaço multiplicou por seis o preço do metro quadrado na área desde 2010. Upper Hill vem acomodando escritórios de companhias estrangeiras, investidores e pequenas empresas de base tecnológica. É o bairro da moda para quenianos e estrangeiros bem formados que querem criar novos negócios. Em comum, tentam resolver problemas locais – e enriquecer ao fazer isso.

Tudo bem pedagógico para quem vive no Brasil. Os problemas e as oportunidades soam familiares: territórios extensos e pouco povoados, que exigem investimento em cobertura de telecomunicações e internet; lacunas sérias e potencial imenso para inovações em transporte, energia, saneamento, habitação, agronegócio; grande população jovem, pobre e mal instruída, porém culturalmente inventiva, receptiva a tecnologia e ansiosa por consumir.

Para completar, o Quênia, especificamente, passa por um período que combina instabilidade política (emperrada por defeitos velhos) e efervescência empreendedora (acelerada por ideias novas). Quem chega do Brasil pode se sentir meio em casa.

No sexto andar de um desses novos edifícios envidraçados, o Senteu Plaza, fica o iHub, mistura de coworking e incubadora. É peça-chave para Nairóbi merecer o apelido de Savana do Silício. Tem fama de ambiente de inovação mais produtivo da África. Em sete anos de existência, abrigou 170 startups e gerou uma rede que conecta 17 mil profissionais.

Começou em 2010, como projeto social de um grupo de jovens quenianos que queriam um espaço para trabalhar e discutir ideias. Operou graças a doações de fundações e empresários, como o francês Pierre Omidyar, fundador do eBay. Nessa fase, o iHub ajudava a treinar programadores e oferecia gratuitamente espaço a quem precisasse de internet rápida para montar seu negócio (sem fins lucrativos, o espaço também havia acumulado dívidas e gerado acusações de gestão ruim contra seus administradores). Em dezembro de 2017, o perfil mudou.

O iHub recebeu aporte de US$ 2 milhões da Invested Development, gestora de recursos dos Estados Unidos que investe exclusivamente em projetos de países em desenvolvimento, e tornou-se ele próprio um negócio com fins lucrativos.

Com o novo estatuto, seus gestores esperam acelerar a linha de produção de startups. “Estávamos recebendo mais de 200 pedidos por mês de gente querendo usar o espaço. Não dava para atender todo mundo apenas com doações”, diz Njoki Gichinga, diretora de parcerias do iHub, enquanto mostra as novas instalações. A infraestrutura para as empresas incubadas se espalha por 7 mil metros quadrados recém-inaugurados, decorados com tubulação hidráulica e elétrica expostas, paredes de tijolo aparente e luminárias em diferentes alturas. “Agora, temos estrutura muito melhor e condições de cumprir nossa missão – ser um polo de tecnologia para a África, reunindo gente com diferentes perfis, do mundo todo”, diz Njoki.

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